sábado, 19 de maio de 2012




Pressinto-te
És chegada enfim!
Tu, que tão próxima à mim, sempre estiveste
Antes mesmo do primeiro golfar do vital ar!

Em teu âmago estão
O que me precedeu
E o que haveria de me suceder!

Novamente teus braços me envolvem
Acariciam-me à face, tuas gélidas falanges
Teus pálidos e frígidos lábios, roçam aos meus
Sugas ao último sopro de ar dos pulmões
Adentram ao meu peito, tuas garras
Trazendo à tona meu coração, ao qual esmagas com indiferença!

Absorves aquele que, um dia foi...
E por isso...
Não mais haverá de ser!

Humberto Santos

quarta-feira, 16 de maio de 2012







Hoje amanheci
Como se o sereno da madrugada
Houvesse lavado de minha alma
Algo que me era por demais essencial
Porém ele também lavou de minha memória
A lembrança do que era.


Agora...
Tudo que me cerca
Está carente de sentido...


Humberto Santos

terça-feira, 15 de maio de 2012



Em meio a mata, ao pé de um frondoso Ipê-amarelo, reuniram-se os deuses, em hedônico festim.
Pan marcava com sua melódica flauta a dança das musas, para deleite de Apolo, faunos acercavam-se das ninfas que em um sensual folguedo, fugiam e escondiam-se, para depois entregarem-se incontinentes...
As bacantes encarregavam-se de manter as taças transbordantes, com o mais inebriante dos vinhos, Hebe servia o n
éctar...
Afrodite, Psiquê, Artêmis, Minerva, Vênus, e outras deusas, conversavam 
à beira do lago, Vênus, moldando o barro, buscava materializar seu ideal de beleza e sensualidade...
Juntaram-se ao passatempo as outras, e na euforia, chamaram a atenção dos demais, que não tardaram a unirem-se ao grupo... Cada qual, concedeu à imagem, aquilo que de melhor dominava, Afrodite, moldou as pernas e roliças coxas, os quadris, a barriga, os gêmeos seios, os delicados braços e mãos...Vênus, encarregou-se de moldar o ventre, com seu convexo desenho... as nádegas harmoniosamente encaixadas às coxas e torso... dedicou, especial precisão aos mamilos, par de joias encimando montes siâmeses... Ao pescoço, deu forma alongada, acentuando o ar majestoso do conjunto... Eros, moldou aos lábios, sensuais, carnudos, a face, as orelhas, os ombros, as mãos... nos olhos, injetou a poção que usa em suas setas... Aracne, fiou seda inigual
ável, com a qual Minerva e as graças teceram divinal veste, com a qual cobriram a extensão do corpo da imagem. Vulcano, forjou com ouro sapatos brocados. Morfeu, de seus domínios, mandou trazerem finos fios e moldar a cabeleira...

Estavam todos exultantes, maravilhados ante a vivacidade, da suavidade dos contornos, da beleza da composição, da harmonia com que os membros se dispunham...

Nesse instante, Zeus, que havia mantido-se recostado ao Ipê, achegou-se a fim de ver do que se ocupavam os demais, ao mirar tal escultura, foi tomado por um sentimento de embevecimento, então, juntando um punhado de barro, moldou um coração, ao qual, Eros, banhou com sua poção, Prometeus, aqueceu-o com o Ol
ímpico fogo, Pandora, retirou de sua caixa a restante esperança, assim, depois de cada um haver depositado algo dentro do coração, Zeus o instalou no peito da criação, que tornando-se viva, foi por ele batizada de: "Ser feito de luz".

Humberto Santos

segunda-feira, 14 de maio de 2012




Para que resistir?
Porque não antecipar o fatal destino?
Há limites para a dor?
Humilhações incessantes
Recaídas constantes
Certezas vacilantes
Agonia dilacerante
Angústia sufocante!

Nas chagas abertas
Pululantes vermes
Devorando mais do que a carne
Dilacerando à alma
Aniquilando ao equilíbrio mental!

A plateia ansiosa, a espera do menor fraquejo
Ao primeiro sinal de fadiga, pronta para em uníssono urrar:
"–Vejam! Este ser não pertence à nossa estirpe, não possui nossa força, deixa-se levar pelas adversidades, fraqueja ao deparar-se com contrapontos..."
"–Tem sentimentos!"

Humberto Santos

domingo, 13 de maio de 2012




Leve roçar da asa de uma fada, em meu rosto, transportou-me ao Éden
Em seu semblante, um tímido sorriso, enigmático, expressivo...
Onírica voz, em meus ouvidos sussurrou a mais encantadora melodia
Na sua angelical face, a máxima expressão da candura
Olhos radiantes, hipnotizantes, anti-Medusa, desperta o que de mais puro há em quem ousa fitá-los
Rubros lábios, esculpidos por Eros
Ardorosa pira, que consumindo-me, purifica-me.


Humberto Santos



Quando contigo estou
E o irrefreável avançar das horas
Vem anunciar que teremos que nos deixar
Olho tua face, e já não sei o que falar
Contudo, se me brindas com teu sorriso, toda a angústia se desfaz!
Quando ao levantar-se, atravessas a porta
É como se todo o lume do universo te seguisse
Deixando-me imerso em um abismo de trevas!

Aqui, agora sozinho
Revolvendo lembranças, ao som de músicas, que nada mais fazem do que tornar mais concreta tua ausência!
Me questiono:
O que acontece comigo, quando estou longe de tí?
Porque ao teu coração não consigo tocar?
Qual enigma há de decifrar-te?
Quais palavras anseias ouvir?

Palavras...
Como enunciar a sensação que me inflama a alma, quando toco tua pele?
Que alquimia me possibilitaria transmutar em palavras o impacto em meu coração
Quando, meio distraída
Me concedes o teu mais terno e espontâneo sorriso?
De que forma expressar, o quão agradável me é
Quando baixas à guarda, e me permites desvendar um pouco mais tua inigualável essência!
Coleciono esses momentos, como à joias raras
Fragmentos aos quais vou encadeando, como à um quebra-cabeça encantado!
Na esperança de um dia
Desvendar-te por completa!
Sem medos ou meias-verdades!

Humberto Santos